Dá para crescer sem perder a essência?

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Foto: Silvia Balieiro – superjornalista, amiga e parceira do Atelier – e eu, trabalhando depois de praticar yoga

“Será que você vai conseguir manter isso se o Atelier ganhar escala?”. “Isso” é a diversão, o prazer diário no trabalho como parte fundamental do negócio. Sem balela. “Eu acredito que sim”, respondi ao amigo (e conselheiro profissional) que me provocava com mais uma de suas perguntas que me empurram para o que pode haver adiante. “E se não for, vamos crescer até onde isso for possível”, concluí. Porque diversão é um valor inegociável.

Eu criei uma empresa, acima de tudo, para me divertir. Alguns disseram que foi inconsequência não pensar antes em sustento. Não ter feito um detalhado plano de negócios. Mas a verdade é que sempre enxerguei o ganho financeiro como resultado natural e proporcional da paixão, da diversão aplicada ao trabalho dedicado.

Foi assim que aprendi. Cresci vendo meu pai trabalhar de calça Lee colorida e camisa de manga curta em uma empresa em que muitos usavam terno. Ele almoçava todos os dias em casa e, quando precisava falar de trabalho, levava os colegas com ele. Conhecer gente nova já era divertido para mim naquele tempo. E, assim, sem formalidades, entendia um pouco mais sobre o que poderia significar a palavra trabalho.

Do que meu pai não abria mão era de conversar profundamente com as pessoas, todas, porque tinha (e ainda tem) um interesse genuíno e enorme nelas – e isso, puramente isso, o transformou no que hoje chamam de líder inspirador. No trabalho, na família, entre os amigos – porque o profissional não se dissocia da pessoa.

Já no fim da adolescência, lembro de ouvir dele frases como: “Eu vou perder o emprego a qualquer momento. E foda-se”. O seu recado era que não se adequaria a regras de um jogo corporativo político e superficial em troca de salários ou status. Ele não abriria mão da diversão nem do sentido – e pagaria o preço. “Se a gente tiver que baixar o padrão de vida, a gente baixa, e não tem problema nenhum”. Claro que não, pensava eu, sem entender a essa altura por que isso deveria ser um tema. Minha base já estava formada.

Cresci também com uma mãe que, por sua vez, não trabalhava quando eu era criança. Ao menos, formalmente. Porque, na prática, eu tinha de dividir sua atenção com o computador novo que ela comprara quando isso ainda era novidade no mundo. Vasculhava tudo com insistência pelo prazer de aprender, quando ainda não havia tutorial no YouTube. Ela nunca me disse que algo era impossível. Tampouco me dizia que eu estava fazendo grande coisa quando preferia, em vez de brincar, escrever livros sobre o que eu pensava e sentia e procurar na lista telefônica o número de pessoas famosas que eu admirava, simplesmente porque já me divertia a ideia de conhecê-las. Mal sabia eu que meus dias de trabalho seriam tão parecidos com os de lazer infantil.

Cresci e pouca coisa mudou nas motivações que preenchem minha vida.

Considero ter sido sorte o fato de ser apresentada ao trabalho pela mesma porta do prazer. E de saber que isso não tem preço – as cifras negociadas são nada mais do que moedas simbólicas neste mundo em que a expressão dos sentimentos passa pela matéria.

Eu acredito, sim, que o nosso Atelier vai ganhar escala sem perder a diversão. Sem perder a alma. A essência. Porque não conheço nada diferente disso. Acredito que vai ser cada vez mais intenso e cada vez mais suave, porque, para a nossa sorte, no mundo novo esse jeito que aprendi a viver parece fazer mais sentido do que nunca.

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