O que aprendi sobre a nova geração de profissionais na vida real

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Em três anos e meio de Atelier de Conteúdo, conheci de perto pouco mais de uma dezena de jovens entre 18 e 22 anos – e identifiquei mitos e verdades sobre o que dizem deles por aí

Durante os quatro anos que cobri a editoria de carreira para uma revista de negócios, me deparei com estudos, fiz entrevistas e assisti a palestras sobre os millennials (geração Y), a geração Z e seus supostos comportamentos.

“Trocam de emprego com facilidade.”

“São ambiciosos, mesmo antes de terem experiência.”

“Cresceram ouvindo que são ‘especiais’.”

“Valorizam menos as conquistas e se acostumam a uma abundância de oportunidades por não terem passado por crises conjunturais.”

“Não são fiéis a marcas ou empresas.”

“Buscam propósito no trabalho.”

“Equilibram vida pessoal e profissional.”

Ouvi variações de frases como essas diversas vezes.

Pela minha observação, algumas delas são verdades, outras são clichês vazios, enganos, exageros, estereótipos. Eram definições nem sempre inspiradoras para quem havia decidido se tornar empresária. Como seria formar uma equipe jovem?, eu pensava. Como lidar com eles?

Gosto de relações profundas, de longo prazo, confundo trabalho com lazer e estava decidida a seguir em frente com mais gente que pensasse da mesma forma – de preferência, jovens.

Queria dar a orientação que tive  no trabalho – e também a que não tive. Sonhava com um ambiente ao mesmo tempo idealista e pragmático, onde todos estivessem juntos por amor ao ofício, trabalhando com método e aumentando a rentabilidade do negócio. Mais do que uma equipe, buscava (e busco) cúmplices.

Pessoas que vissem o jornalismo com o mesmo romantismo que eu. Mas também com a mesma seriedade. Para cuidar de cada palavra, discernir fatos de opiniões levianas e maturidade para honrar o combinado. Queria um time comprometido por escolha. Indivíduos fortes, livres, autênticos, que concordassem que juntos somos mais poderosos, e a vida, mais divertida.

Nosso trabalho permite usarmos com frequência a palavra diversão. Lidamos com os sonhos das pessoas – escrever um livro, publicar um artigo, traduzir na cultura de uma empresa os ideais de um empreendedor.

Compartilhamos intimidades, de pessoas e organizações. Ouvimos pensamentos, traduzimos emoções. Não é à toa que temos na parede do escritório uma imagem de Carl Jung, um dos psicólogos mais importantes da história.

Não entramos numa conversa de trabalho para julgar. Tomamos cuidado para não confundir comunicação com fofoca. Nutrimos a confiança que depositam em nós. Tudo isso não se faz com processos de fabricação em série. Precisamos ser humanos o tempo todo. Sensíveis e práticos. Um equilíbrio difícil, sutil, que amadurece com a experiência. Por isso sempre quis uma equipe “para sempre”. Resolvi apostar nos jovens.

A primeira estagiária foi contratada nos meses iniciais de Atelier. Três anos depois, é uma profissional formada. A segunda virou repórter antes de concluir a faculdade. Lembro da conversa que tivemos num café e da expressão de espanto quando ela ouviu a nossa proposta: “Queremos dobrar seu salário e te efetivar”.

As outras quatro estudantes que hoje integram a nossa equipe fixa têm a mesma perspectiva no que depender de mim e da minha sócia, Marcela. Atribuo essas conquistas a uma via de mão dupla: a maneira como nos dedicamos a cuidar da equipe, e que elas, por sua vez, se disponibilizam a aprender e arriscar.

A seguir, compartilho o que de melhor constatei sobre as novas gerações baseada na experiência empírica no Atelier.

1. Podem ser estáveis e gostam de relações profissionais de longo prazo – desde que enxerguem motivos para estar na empresa. Vejo as meninas do Atelier inquietas, curiosas, produtivas… mas calmas. Estão entretidas e realizadas com a grande quantidade de desafios que encaram todos os dias, o que não significa que estejam satisfeitas. Isso, desejo que nunca estejam. Arrisco dizer que hoje estão aqui, inteiras, entregues. Porque sabem exatamente onde estão pisando, para onde e como podem crescer e o quanto são importantes para o negócio. Não é um clichê corporativo, não. Elas são de fato o que temos de mais valioso – e é fácil comprovar isso pela quantidade e qualidade de tempo que dedicamos à sua formação.

2. Fazem perguntas, pedem ajuda e assumem seus erros quando o ambiente valoriza mais o aprendizado do que o acerto. Se puder errar, eles se arriscam. E tendem a aprender mais rápido do que os mais velhos. Lembro o quanto eu sofria no início da carreira tentando acertar. Quanto tempo perdi até entender que isso não era o mais importante a perseguir. O medo de falhar adia a coragem necessária para experimentar. Por isso, estimulamos muito que se arrisquem logo, se exponham sem (ou apesar do) medo do julgamento. Não estão aqui para saber, mas para não desistir de aprender.

3. Quando confiam, são transparentes a ponto de falar o que poderia as comprometer numa organização tradicional. Já vi acontecer algumas vezes. Sinceridades e “sincericídios” incomuns no ambiente corporativo. Por aqui, incentivamos que fiquem à vontade para dizer o que pensam, mesmo que seja para direcionar para outro caminho. Parece que as novas gerações são mais livres para se expor. Que não se atraem com facilidade por jogos de poder que podem contaminar os ambientes corporativos. Além disso, parecem ter um respeito natural à diversidade e uma noção mais segura de seu papel no mundo.

4. Respeitam, gostam e se sentem à vontade com figuras de autoridade, desde que enxerguem legitimidade na hierarquia (e não títulos pro forma). Ouço feedbacks, leio posts e me emociono ao constatar o valor que as jovens do Atelier dão ao aprendizado genuíno. Elas dizem quando admiram alguém e se espelham em atitudes de profissionais mais experientes. Gostam do que hoje é conhecido no ambiente profissional como mentoria – o que faz parte da dinâmica de trabalho no Atelier. Quanto mais transparente se é com eles, mais natural a receptividade. Aqui, a gente define o trabalho como jornalismo terapêutico, começando pelo próprio time.

5. São fiéis aos próprios propósitos. Essa é uma das verdades sobre as quais já li muito por aí. Trabalhos só por dinheiro ou que não criem algo positivo para o mundo realmente parecem perder cada vez mais o sentido para as novas gerações. O conceito de trabalho com diversão que propomos no Atelier, portanto, logo encontra eco nos anseios dos jovens convidados a experimentar isso. E diversão, no caso da nossa equipe jovem, também passa por dias muito ocupados com desafios de trabalho. Observo que se divertem ao perceber que podem fazer a diferença na vida de alguém. Ao conhecer uma pessoa inspiradora que provavelmente não cruzaria seu caminho de outra forma. Ao lidar com temas diferentes a cada mês e aprender cada vez mais.

6. Integram mais a vida pessoal e profissional. A palavra “integrar” me parece mais adequada do que “equilibrar”. Eles menos dividem e mais somam. Fluem com naturalidade por áreas que as gerações anteriores costumavam separar. Trabalho, diversão, liberdade, compromisso, responsabilidade, lazer… tudo meio junto e misturado atendendo às demandas de cada papel que desempenham. Porque eles sabem que são, antes e além de tudo, pessoas. E que a vida não fica em “pause” enquanto a gente trabalha.

Qual a sua experiência com as novas gerações?

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Comentários
  • Anice Fregonese
    Responder

    Parabéns. Muito, muito bom.

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