Ser invisível pode ser essencial

 Em autoconhecimento, bastidores atelier, cultura de empresa, inovação, jornalismo

Desde dezembro, minha missão tem sido ser invisível. Isso porque, em alguns projetos do Atelier, faz parte do nosso método fazer uma imersão na empresa cliente para observar e analisar como é o dia a dia lá dentro. Acreditamos que ter apenas encontros semanais, por exemplo, não é suficiente para entender profundamente com quem lidamos nem quais serão os desafios intrínsecos ao projeto. Há três meses dedicada a um projeto desse tipo, este tem sido meu principal aprendizado.

Faz parte da minha rotina observar todos ao meu redor o tempo inteiro, examinando os pequenos detalhes, quem fala com quem, de que forma, e outras minúcias que tantas vezes passam despercebidas em nossa própria vida. Mas que são fundamentais para entender o contexto nos detalhes e, portanto, nos ajudarão a realizar um minucioso e completo estudo do grupo – que é um dos nossos principais trabalhos.

Minha primeira impressão ao assumir o novo projeto foi achar que seria muito fácil ser invisível. “Não ser notada por outras pessoas parece ser algo tranquilo”, pensei. Mas não é. Porque ser invisível não significa ser o “Gasparzinho”, como logo aprendi com a experiência. Muitas vezes, é o contrário: participar da conversa, ser parte do contexto, agindo como se fosse da equipe. Ao mesmo tempo, sem esquecer que o seu papel é sempre de uma perspectiva externa. É uma mistura aparentemente contraditória. Uma linha tênue, porque, por um lado, ser invisível é parecer com o grupo em que se está inserido. Por outro, é uma maneira de manter o distanciamento saudável, olhar o contexto de fora e, com isso, contribuir com observações que só poderiam ser feitas por alguém externo. 

Desde que me tornei “invisível”,  tenho prestado muita atenção a tudo o que acontece ao meu redor. Muitas vezes, uma conversa aqui ou um comentário ali podem ter um significado maior e se revelar mais importantes do que pareceriam à primeira vista. Em algumas situações, não é tão fácil filtrar o que pode não ter importância e o que faz a diferença para a compreensão do cenário. Na dúvida, anoto tudo para compartilhar com o time depois e, com a ajuda das outras profissionais, captar os significados escondidos na rotina. 

Em alguns momentos, me pego questionando se deveria agir um pouco diferente. Por exemplo, aproximando-me mais das pessoas. Ou se deveria continuar na minha posição de observadora. Na prática, encontrar essa medida depende do momento e de como você é recebida em cada lugar. Depende do quão aberto os outros  estão diante da sua presença e de qual é o objetivo do projeto, o que varia muito de empresa para empresa. Já entendi, no entanto, que o ideal é estar presente, alerta, atenta. Lembrando por que estou ali e, consequentemente, de onde devo enxergar a cena para não “perder a linha”. Por exemplo, repetir expressões ou piadas internas da empresa no piloto automático, absorvendo comportamentos do meio sem se dar conta disso, pode despertar um sentimento de pertencimento ao ambiente que, por sua vez, leva à desconexão do olhar estrangeiro, da nossa perspectiva externa. Isso, consequentemente, limita nossa capacidade de contribuir com o outro.

Em três meses de projeto, já sinto que consegui absorver muitos aprendizados que, certamente,  vou carregar por toda a minha vida. Estar sempre atenta aos detalhes é fundamental para capturar o que importa do mundo ao redor – o que faz parte da essência do jornalismo.

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