Mulheres na liderança: o valor (e a responsabilidade) do exemplo

 Em carreira, cultura empresarial, equipe

Ainda estava com uma cara de sono quando me sentei na poltrona. Demorei alguns segundos para achar uma mesa livre e fui ziguezagueando pelas cadeiras até chegar onde havia um canto sem dono. Enquanto esperava meu entrevistado do dia, parei para respirar e olhar ao redor. Não consegui segurar a risada. Naquele café no meio da Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo, só havia homens. Em grupos maiores ou sozinhos, eles tomavam seus cafés vestindo o uniforme. Calça escura, camisa clara. Alguns de terno, outros mais casuais. Depois de uma análise mais cautelosa, contei nos dedos as mulheres que me faziam companhia naquela manhã de quarta-feira – eram duas.

Não me lembro de ter me sentido alguma vez desconfortável em ambientes predominantemente masculinos, ainda que em alguns deles tenha precisado fazer um esforço até ser respeitada. Lembro-me, por exemplo, de várias situações em que homens mais velhos me fizeram perguntas para testar meu conhecimento de mercado financeiro, erguendo discretamente a sobrancelha quando eu entrava na discussão com argumentos aceitáveis. Mas naquele dia fiquei pensativa. Por que tão poucas como eu ali? Tenho certeza de que há profissionais capacitadas e competentes para atuarem nas tantas empresas que operam ao redor daquele café. O que as afastava?

Poucos dias antes, em um dos projetos do Atelier, estávamos com dificuldade de achar mais entrevistadas mulheres. O assunto é bem específico, mas sabemos que há boas personagens espalhadas pelo país. Entramos em contato com algumas delas, mas estavam com a agenda comprometida ou não desejavam se expor numa entrevista. Essas razões são absolutamente compreensíveis, mas ficamos frustradas de não conseguir balancear os tantos homens que já haviam dado seu depoimento.

Essas duas situações me fizeram refletir. Independentemente de como eu encaro esse assunto, fiquei matutando a questão do exemplo. De quão importante é ter mulheres realizadoras para admirar nas áreas em que atuamos. Em momentos em que nos sentimos desajustadas, com dificuldade para superar os obstáculos, dá sempre uma energia extra saber que alguém foi lá e venceu enfrentando algo parecido. Especialmente quando sabemos que esse alguém também já deve ter ouvido algum comentário machista, enfrentado dilemas sobre família e maternidade, ido para uma reunião sentindo cólicas porque não havia outro jeito.

No mundo corporativo, já virou quase um clichê dizer que é importante ter mulheres na liderança porque elas conduzem pessoas e conflitos com outro olhar e outras atitudes. Já li muitas pesquisas sobre isso quando trabalhava em redação e escrevia sobre o assunto. Agora, posso dizer na prática. Não sei se tem a ver com sermos mulheres, mas fato é que eu e a Ariane queremos fazer crescer a empresa, o faturamento e o lucro, mas não agressivamente e sem propósito. Queremos que as profissionais que trabalham conosco sejam focadas, mas que construam laços com as colegas que ultrapassem as paredes do escritório. Queremos tempo para ficar com as nossas famílias e discutimos desde já como será a licença-maternidade, mas desejamos que o trabalho seja integrado à nossa realização e felicidade, e não um compartimento separado da nossa vida. Acreditamos que cólica e dor de cabeça são motivos legítimos para ficar em casa e descansar.

Pensei em mim. Que ocupo o papel de sócia de uma empresa que, atualmente, por força do acaso, só tem colaboradoras mulheres. A minha postura diante desse mundo ainda muito dominado por eles no alto escalão das empresas talvez possa ajudar (ainda que em pequeníssima escala) a formar profissionais que consideram normal ver uma mulher no comando. No caso do Atelier, duas.

Penso em minha mãe e minha avó, que trabalharam a vida inteira e se sentiram muito realizadas no que fizeram. Minha avó deixou de dar aulas de química na universidade quando já tinha mais de 70 anos, e só parou porque houve um corte dos funcionários mais antigos da instituição – era preciso abrir espaço para a nova geração. Uma entrevistada me disse certa vez que para formar novas lideranças muitas vezes basta um exemplo, uma inspiração. Alguém para abrir a porteira e mostrar o caminho para outros passarem. Não tenho a pretensão de ser essa pessoa – muitas abriram a porteira antes de mim –, mas se minha trajetória ajudar algumas jovens jornalistas a sonharem mais alto, não há nada mais ambicioso que eu possa desejar.

 

 

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