Aqui o propósito é real

 Em diversos

“No Atelier, temos o propósito de fazer um novo jornalismo e buscamos quem esteja disposto a construí-lo com a gente.” Esta frase me chamou a atenção no dia do processo seletivo e foi um dos motivos da minha torcida frenética pela aprovação. A proposta, teoricamente, era irrecusável. Fazer jornalismo de um jeito diferente daquele que a faculdade nos apresenta – e apavora – ao trazer a realidade das redações. Um jeito mais intimista, profundo e intenso de apurar, com as ferramentas necessárias e supervisão. Parecia um sonho!

Lembro de sair da dinâmica empolgada, mas igualmente curiosa para saber como essa teoria funcionaria na prática. Entrei para o time, observei a rotina e 365 dias depois posso dizer que aquele propósito apresentado é puramente aplicado por aqui. Mas, antes de construir e praticar um novo jornalismo, é preciso ajudar todas as pessoas envolvidas a se desenvolverem individualmente.

É impressionante como as atividades para essa formação são diferentes do que vejo ser o padrão no mercado. Até hoje me surpreendo no dia a dia. Ao contar aos meus amigos, noto que o choque é ainda maior para quem está fora. Difícil alguém não se encantar quando menciono algo sobre a nossa famosa “casa dos jovens”, em que juntamos toda a equipe para trocar vivências e conversar com convidados experientes que têm muito a compartilhar.

Ou então sobre as reuniões de clientes que acontecem mensalmente. Esse poderia ser apenas mais um encontro para falarmos sobre entregas e demandas, mas vai além. O foco principal é criar o espaço para abrirmos o coração sobre o que tem por trás das atividades, os sentimentos despertados no último mês e compreender o efeito causado internamente pelo que vivemos. A última reunião, por exemplo, aconteceu na casa da Julia, repórter do Atelier. Já na escolha do ambiente está parte da proposta. A ideia é sempre levar essa reunião para fora do escritório, criando uma atmosfera acolhedora e especial. Naturalmente, isso faz com que o momento ultrapasse as barreiras profissionais e com que a gente aprofunde as relações e a confiança entre nós.

Com as demandas e a variedade de clientes aumentando, encontros como esse ficam cada vez mais pontuais, mas também mais sagrados, como parte do calendário. Quando acontecem, são ainda mais intensos e profundos, suprindo a distância que, na rotina, faz parte do trabalho, já que estamos mergulhadas cada uma nos projetos pelos quais somos responsáveis.

Tenho observado que o resultado desses encontros é uma conexão genuína entre nós, que desperta o interesse em conhecermos mais umas às outras. Acredito que essa dinâmica se explique em parte pelo fato de sermos um grupo pequeno. Mas prefiro pensar que a dedicação e a profundidade que tanto ouvimos falar durante o desafio de fazer esse jornalismo ultrapasse a estrutura organizacional e reflita, em qualquer tamanho, como tratamos e nos interessamos pelas pessoas, dentro e fora do Atelier. Estou aqui para ajudar a fazer isso ser verdade, mesmo com o crescimento que trabalhamos para ter.

As viagens de trabalho são outro ritual importante – embora esporádico. Nesses momentos, a convivência em tempo integral se torna uma oportunidade de observar Ariane e Marcela em ação, seja em reuniões, seja em jantares, palestras ou entrevistas, o que é mais enriquecedor do que qualquer aula teórica. 

A disciplina aqui não se confunde com rotina monótona. Em um dia você está como sombra em uma entrevista, tentando achar a porta invisível para conquistar a confiança e mergulhar na história do entrevistado. No outro, você é a pessoa que tem uma estagiária para te acompanhar. Hoje você assiste a uma reunião apenas como ouvinte, mas em algum tempo é você quem a conduz. Sempre com o acompanhamento e apoio necessários para que nada saia do controle, inclusive emocionalmente. Esse olhar cuidadoso é tão particular para cada uma de nós que nos faz tê-lo também entre nós – e, assim, a cultura se propaga.

Em todas essas experiências, mais do que técnica profissional, aprendemos sobre pessoas, empatia, comportamento e principalmente sobre autoconhecimento. 

Sabe aquela história de que estagiário entra na empresa para servir cafezinho e tirar xerox? Esquecemos isso por aqui. Todas nós tomamos e servimos café, mas só para dar um ânimo extra para colocar toda essa teoria em prática.

Não tenho dúvidas de que o jornalismo é a base do Atelier. Técnicas de escrita, de entrevista, de abordagens são o foco para, juntas, construirmos os projetos. Mas, mais do que aplicar esse novo formato, estamos construindo “novas pessoas”, que se conheçam de modo tão profundo a ponto de genuinamente buscar conhecer o outro.

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