A busca contínua por um estilo de escrita

 Em jornalismo

Já faz algum tempo que percebi que nunca escreveria como os grandes mestres – e esse fato, na verdade, é reconfortante. Seja Jane Austen, Truman Capote ou Paulo Leminski, seja escrevendo ficção, não ficção, reportagens, crônicas ou poesia, cada autor ou autora possui seu próprio estilo. Afinal, um dos motivos que tornam seus trabalhos únicos é que ninguém pode fazer o mesmo que eles.

No Atelier, estou sempre alternando o estilo de escrita para adaptar o texto a cada cliente e projeto. Isso envolve escolher palavras que foram repetidas e muito utilizadas ao longo das entrevistas, acrescentar ideias e pensamentos e equilibrar o tom de voz do texto para o assunto sobre o qual estou escrevendo. Se em alguns momentos adoto uma escrita leve e divertida, em outros é necessário incorporar a formalidade e os termos técnicos. É preciso girar a chave mental e mudar o tom. Logo depois de escrever sobre a legislação brasileira de dados pessoais, chega o momento de ligar a mente para a gastronomia, a maternidade ou negócios.

Venho pensando onde estaria o meu estilo no meio de tudo isso. Se a escrita fantasma é, justamente, personificar outra pessoa por meio das palavras e dar forma a um conteúdo desestruturado, pode ser que a minha personalidade esteja escondida sob a camada do cliente? Ou ela desaparece? A resposta para essa reflexão me veio ao ler Sobre a escrita, de Stephen King – outro mestre que admiro. Na obra, o autor faz um apanhado das melhores práticas da escrita para ficção – e que servem muito bem para a não ficção – recorrendo à sua experiência pessoal.

Segundo ele, lemos para conhecermos as possibilidades do que podemos escrever nos comparando aos grandes autores, e para termos contato com diferentes estilos. “Você pode acabar adotando um estilo de que goste muito, e não há nada de errado com isso”, conta King ao descrever que, na adolescência, chegou a misturar estilos de Ray Bradbury, James M. Cain e H.P. Lovecraft em uma única história. “Esse tipo de fusão estilística é necessária para o desenvolvimento do estilo do escritor, mas não ocorre no vácuo. Você tem de ler de tudo, refinando (e redefinindo) constantemente o próprio trabalho no caminho.”

Seguindo esse pensamento de Stephen King, me parece, então, que não existe um caminho melhor para descobrir meu próprio estilo de escrita do que escrevendo de várias formas diferentes. Ao incorporar palavras, pontuações e tons de voz dos vários clientes do Atelier, estou colhendo referências de tudo o que é possível fazer em um texto. É também pelo trabalho que exercito termos novos, construções de parágrafos diferentes e aprendo regras gramaticais que me passaram desapercebidas ao longo dos anos de ensino. Já a leitura de grandes autores e trabalhos literários e jornalísticos continua uma constante, dentro e fora do Atelier.

Por enquanto, sigo praticando a minha escrita e aprendendo diferentes estilos para misturá-los aos poucos, conforme o possível. Aos poucos, vou descobrindo quais são as minhas palavras favoritas, o equilíbrio entre o humor e a formalidade, até encontrar o meu tom no meio de tantas ideias e vozes.

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Mostrando 2 comentários
  • Anice Fregonese
    Responder

    Parabéns, continue sempre.

  • Hermini
    Responder

    Incrível o texto! Parabéns!

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